quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O significado de medo em Cuba

Já há muito estava para escrever este post até que ao ler o artigo de yoana, mais vontade me deu em abordar este tema.O medo de dizer alguma coisa, o medo que ninguém entende, ou o medo difícil de explicar, este medo passa-se em Cuba.

A minha primeira viagem a Cuba foi muito enriquecedora a nível profissional e cultural também, graças a Enrique (animador cubano que trabalhava no hotel), que em pequenos momentos, "fugindo"sempre em medo, me conseguia elucidar dos problemas daquela ilha. Os momentos que tínhamos para conversar não eram muitos, visto que ele não podia ser visto a conversar com um turista e foi a partir desta privação de liberdade, que comecei com as várias questões e a querer saber mais e mais.
Dessa vez, custava-me perceber, Porquê ele fala comigo sempre a olhar para o lado? ou Porquê ele deixava palavras por dizer?, eu estranhava aquela atitude, mas não condenava.
Nesta viagem fui acompanhar um grupo com cerca de 80 pessoas, e neste grupo de pessoas poucas foram as que se aperceberam desta situação, porque passar férias num resort, esconde o que se passa verdadeiramente num país. Regressei a Portugal com vontade de saber mais, com vontade de voltar a Cuba.

Quando regressei, passados 6 meses, consegui perceber o que não percebia, consegui ter tempo para conhecer o medo que lhes vai no sangue.
Fiz esta viagem com uma amiga que não me deixa mentir, e que aliás tanto como eu, passou situações que nos deixavam indignadas e com vontade de fazer alguma coisa para que as coisas mudassem.
Eu já vinha com uma noção de medo, mas pensava eu que fora de Hotel, as coisas fossem um pouco diferentes, mas certa noite ao jantarmos e abordamos o tema Fidel, foi visível os olhares do nossos amigos, o medo e o pânico foram constantes até que nos disseram Hablamos despues, estas palavras, mais o pânico foram as suficientes para nos calar.
Mais tarde já em quatro paredes, com janelas e portas fechadas, conseguimos perceber o que se passa verdadeiramente em Cuba, apesar que (como eu já tinha comentado no post de yoana), o medo era constante e falar baixinho também, mas depois de tanto conversarmos percebemos o que ninguém percebe, até que Enrique pergunta: Entendes?Se tu sim, bueno yo no entendo!, é verdade, ele tem muita razão, quando eu disse que percebia, eu percebia tudo o que ele queria dizer, mas é claro que não entendo.
Tudo o que era falado era sempre entre quatro paredes, na rua falar do país era um assunto tabú, além de que quando estávamos a passear, ou mesmo a caminho da praia sentia medo e nervosismo nos seus olhares. Fomos mandadas parar pela policia porque estávamos com Cubanos...no Banco quando nos aproximamos, o segurança disse logo que os cubanos não podiam entrar...resumindo eles são tratados mal no seu próprio país. Dai o medo, o medo das represálias, o medo de estarem a fazer alguma coisa de mal, sem estarem a fazer, o medo de estarem a ser observados, sem saberem...enfim, um medo que nunca acaba.
Apesar de muito tempo passados juntos e com tempo para conversa, só mesmo por carta (uma carta que não chegou por correio, esta carta foi entregue a uma pessoa que esteve em Cuba e me enviou a partir de Espanha) , decidi transcrever um pequeno excerto, porque aqui mais do que ao vivo, o Enrique conseguiu dizer-me sem medo, o que lá me diz com medo.


"...De allí vine caminando para entrar en las tiendas, estaba buscando un TV, mis amigos holandeses querian comprar uno para regalarlo a mi familia. Puedes creer tu que no ese dia, dias antes estuve buscando un TV modesto, no tan caro, aproximadamente de 200-250CUC, finalmente les agradecí la acción pero no habia TV de esse precio,mis amigos subieron la tarifa, me dijeron que buscara uno de 300-400CUC. Recorri todas las tiendas, Cárdenas, Varadero, Santa Marta, Matanzas, nada; solamente algunos de 750CUC ou 900CUC y hasta 1200CUC. Que verguenza!Un pais donde el salario maximo es de 400pesos moneda nacional, donde los productos son vendidos en una moneda que para obtener es necesario cambiar 25 nacionales por 1 CUC!ni aunque el cambio fuese 1x1 un sueldo es suficiente para compralo, así es mi país!En el unico lugar del mundo donde suceden estas cosas, el cambio de Presidente no hizo nada..."


Se continuasse aqui a escrever todos os episódios que passei, demorava dias...em Cuba é tudo mau, mas para mim, o pior mesmo é a privação da liberdade, é o querer sair do teu País e não puderes, é o querer dizer o que pensas e não puderes, em pleno século que estamos é impensável o que se passa numa ilha que está tão longe e próxima ao mesmo tempo.

8 comentários:

Aguaya Berlín disse...

Tu testimonio es real Sofía, es tan real como el miedo que también sentimos muchos aun no viviendo más en Cuba... un miedo ya no por nosotros sino por los que dejamos atrás...

Muy importante que en el mundo se conozcan estas verdades que cuentas en tu blog, tú que sí conoces Cuba, tú que no dejaste que te vendaran los ojos...

Un abrazo,
AB

El isleño disse...

Ei, Sofia ...

OK o que você dizer neste post... quase todos nós sabermos que nasceram e viveram apenas de uma maneira, uma vez que mais de 70% da actual população de Cuba nasceu depois de 1959... Eu também acho que não é o mesmo viver em Cardenas, Varadero o Matanzas que viver em Habana, uma cidade muito maior... Acho que mais do que o medo de serem trancadas em uma prisão, a serem torturados ou interpelações, o medo é de perder o pouco que se pode ter um futuro aqui na ilha ... por exemplo, que o teu amigo trabalha em um hotel, se violar as regras do "nenhuma amizade" com os turistas podem perder seu emprego e é por isso que ele é duplamente perseguido: se sente ameaçado como um cidadão que não pode dizer livremente nas ruas a sua abordagem sobre um tema ou outro, e, além disso, depende de emprego como um hotel gerido pelo governo (em Cuba, mais de 95% dos empregados trabalham para as agências estatais ou de governo), porque se você ignorar este trabalho não iria encontrar em mais nenhum outro hotel em Cuba ... e se ele não trabalha, o que o que vai viver?...

é triste mas é esse o caso.

com cumprimentos

TIROFIJO disse...

http://tirofijomalanga.blogspot.com/2008/10/convocatoria.html

sofi, eres muy bella.

Sofifaruk disse...

Verdad Aguaya!

Isleño, eu sei ou imagino que viver em Cárdenas ou Matanzas não deve ser a mesma coisa que Havana, até porque eu passei uns dias em Havana, só que a maior parte dos meus episódios, foram passados na zona de Matanzas e as pessoas com que eu privei eram dessa mesma zona e eu só posso aqui contar o que vi e vivi, seja das histórias das pessoas, seja do que passei.
O facto do hotel ser gerido pelo governo, foi um dos assuntos que eu não sabia e fiquei a saber na minha primeira viagem, achei incrível!Portanto e por isto das outras vezes que fui a Cuba já não fiquei em Hotel, mas sim em casas particulares e foi ai que conheci Cuba pelos vossos olhos.

Gracias Tirofijo!

Ivis disse...

Sofía,

Gracias por tenernos tan presentes. Gente como tú ayuda a comprender el fenómeno de Cuba y a la larga ayudará a acabar con esa dictadura.
Me encanta el portugués, un día aprenderé, pero entre tanto entiendo bastante.
Un besito. Ah, tienes unas mascotas bellísimas.

Yoana disse...

Gracias Sofía por esa insistencia para conocer la verdad. Muchos extranjeros se contentan con disfrutar de lo que les ofrecen y no indagan más. No los culpo, pero si me revientan aquellos que porque estuvieron una semana en Varadero me discuten que la situación no es como yo la describo, qué saben ellos?
De verdad, eres muy linda persona. Un abrazo emocionado.

Sofifaruk disse...

Ivis,Gracias...el portugués es muy fácil, después de algún tiempo en contacto comprender aún mejor!

Yoana,muy cierto, ya que me pasó, algunas personas que estaban en Varadero, incluidos los que han pasado una semana conmigo, creo que no es mala como dicen o que hable ... lo que se puede hacer! Gracias por sus palabras.

moon disse...

cheguei de cuba ontem...
ainda estou sufocada. parti com mil expectativas, voltei irritada comigo própria por ter ido visitar um país onde as pessoas são privadas de todas as suas liberdades. esperava encontrar pessoas alegres e deparei em todas as esquinas com pessoas ressabiadas, acometidas de um mal que só a privação tráz. havana é um bordel, as prostitutas passeam-se pelos hoteis e interpelam toda a gente, literalmente, à descarada. em varadero os empregados só dão água a troco de cucs, mesmo ao meu amigo queestava desidratato devido a uma diarreia de3 dias. um horror. achei as pessoas perversas, e a minha interpretação é que este estado de alma advem das privações que sofrem - e depois todos os dias contactam com os turistas, com mais cucs para gastar numas ferias de uma semana do que eles ganham num ano. foi uma desilusão para mim. já viajei muito, por muitas partes do mundo. nunca me senti tão ressacada de uma viagem como hoje, 24 horas depois de chegar de uma ilha prisão.